quarta-feira, 26 de novembro de 2008

As formigas e a chuva

Você certamente já foi criança e, naquela época, destruiu algum formigueiro. Era curiosidade e não maldade, eu sei. Jogar uma pedrinha e ver várias formiguinhas muito mais rápidas do que o normal saírem dali, fuçando o que tinha acontecido. Não importava quantas pedras jogasse, mais cedo ou mais tarde, incansáveis, elas reconstruíram.

Em 1983 eu tinha seis anos de idade e ficava muito impressionada por ver Gaspar no Jornal Nacional. Na minha escola em Joinville eu era a única que conhecia aquela cidade, onde minha mãe nasceu. Onde os irmãos, primos, tios, a mãe da minha mãe ainda moravam. Onde todos eles estavam deixando suas casas para ir para não sei onde - e eu não sei mesmo, não tinha noção naquela época. Meses depois de outubro, quando fomos visitar a cidade, havia as marcas da enchente na parede.

Tal qual as formiguinhas, eles reconstruíram Gaspar, reconstruíram Blumenau e devem ter reconstruído mais alguma cidade que deve ter ficado embaixo d'água e eu não me recordo. Brusque? Itajaí? Ilhota?

Quantas vezes você ouviu falar do Baú? Pois é, o irmão da minha mãe se mudou para lá quando não tinha nada. Nem a BR-470. Para chegar lá, tinha que ir pela Jorge Lacerda, pegar uma balsa e andar muitos quilômetros em estrada de barro. Eu estava junto quando minha irmã foi entregar o convite de casamento à bordo de um fusquinha branco. Chovia e ele chegou marrom. Mesmo.

Todos brigaram com esse meu tio. A filha mais velha tinha oito anos. A mais nova, meses. Depois das cinco meninas ainda nasceu mais um menino, lá no meio do fim do mundo. Pois adivinhe, esse meu tio "enricou" à custa de muito trabalho braçal, arroz e bananas. A casa dele, de alvenaria, tinha uma cozinha enorme, para receber não só os seis filhos, genros e noras e netos mas quem mais chegasse. Nos fundos, um mundão sem fim de arrozal para tomar banho no verão. E um galpão com trator para brincar. E um morro de pasto na frente, para descer com folha de palmeira. Eu espero que esse morro continue lá.

Família grande é assim mesmo. Quando a chuva começou, me preocupei com meus irmãos em Joinville. Depois com minha mãe em São Francisco do Sul. Depois com meus tios em Gaspar. Depois com meu tio em Ilhota. E nesse meio tempo ainda sobrava pensamentos para a família do meu pais, distribuída em Joinville, Jaraguá do Sul, Piçarras e Itajaí. Dizem que mesmo os incomunicáveis estão bem e, até provarem o contrário, eu acredito.

Agora eu me preocupo com todos. Já tenho achado 1983 longe demais, leve demais. Já não agüento mais atualizar manchetes com novos mortos e desabrigados. Já não suporto ouvir a chuva. Já não consigo ver TV nem rádio sem chorar. Nem fotos como essa, do Baú, tirada pelo Guto Kuerten e que eu surrupiei dessa matéira do DC Online. Acho que meio que para ficar mais leve jutei tudo que tinha em casa - sapatos, roupas, roupa de cama, edredons, colchonetes  - e mandei para a Defesa Civil. 

As formigas vão precisar disso tudo para recomeçar.



quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Blogs e amigos

Se tem uma coisa que eu me amarro, é blog diarinho. Sou uma voyeur compulsiva nesse sentido. Leio, claro, os blogs dos amigos - exceto os de poesia, não me odeiem, não é nada pessoal. Dou risadas, vejo fotos, leio histórias e, na maior parte das vezes, não comento.

Mas leio também blogs de desconhecidos. E, quando gosto do estilo, das histórias, das alegrias, das tristezas, viro habitué. É terrível. Eu conheço o que aquela pessoa mostra que é, eu sei de suas mágoas, compartilho suas angústias, vibro por suas alegrias e... não faço a mínima idéia de quem é realmente. É quase como ler o Diário de Anne Frank, só que em tempo real e sem saber que o final não é feliz. Quando um desses blogs some, eu sinto que perdi um amigo.

Uma amizade unilateral, já que também nunca comento, como fosse um amor platônico.

Isso deve ser doença, não? Ou pura carência?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Parou!!!

Acordei com um silêncio absurdo em casa. Para acabar com ele, acordei os dois monstrinhos. Mesmo assim, silêncio. Muito silêncio.
Me arrumei com silêncio.
Gritei para colocarem os uniformes com silêncio.
Ouvi algazarra no quarto com silêncio.
Coloquei água para ferver com silêncio.
Só quando olhei para as bananeiras no jardim que me dei conta: a chuva tinha parado.
Estou com um sorriso inexplicável na cara.

E ontem o Deco deu uma explicação para essa chuva toda:
- Mãe, chove quando Deus chora. As gotinhas são as lágrimas dele.
- Poxa, Deco, então Deus tá mal, hein? Chorando desse jeito...
- Ele deve estar muito triste com as coisas erradas que andam fazendo por aí, mãe. Estão degradando a terra. Ele também deve saber que o Dário construiu um shopping no mangue, em cima das casas dos caranguejos.
- ....

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Ana e as baratas

Chove há semanas em Florianópolis e isso me baixou o astral e me jogou em tal torpor que eu me sentia como se estivesse em Joinville em 94. Não, 94 não foi um bom ano. Minha casa e meu carro são um espelho do que eu deixei acontecer na minha vida. Bagunça e sujeira. Bagunça na casa e sujeira no carro, melhor frisar essa parte. Mas sempre tem algo que me tira do torpor. Dessa vez foram baratas.

Cheguei em casa domingo à noite, após um final de semana extremamente cansativo e encontrei elas já na entrada, olhando para mim. Vendo que não tinha veneno por perto, demoraram para engendrar uma fuga. O que elas não sabiam é que eu com um chinelo na mão eu sou muito mais mortal que qualquer frasco de Baygon.

Antes de dormir avaliei meu ostracismo, minha decisão de ficar no esquema casa-trabalho-casa, de deixar várias coisas para depois, de estar sempre exausta - física e mentalmente - demais para qualquer coisa, qualquer palavra, qualquer programa. Foi o que bastou para retomar minha vidinha de sempre, a começar pela caixa de gordura, agora devidamente limpa e dedetizada. Os próximos passos serão o carro e o jardim.

E logo minha casa estará aberta às visitas, como eu sempre gostei, como sempre me fez bem.

domingo, 21 de setembro de 2008

Meses negros

Pode ser que você realmente conviva com uma mulher dentro de casa. Pode ser que não. Caso você pertença à segunda opção, você pode estar meio perdido com o que acontece à sua volta em todos os outros ambientes em que esses seres apareçam.

Fato 1: o verão começa em dezembro.
Fato 2: mulheres usam biquínis no verão.
Conseqüência: em agosto, mais tardar setembro, mudanças começam a acontecer no humor feminino.

De repente, o chocolate some, junto com as guloseimas em geral e o bom-humor.
- Bom dia!
E de repente você adoraria uma resposta grosseira no lugar daqueles dois olhos fuzilantes.

Não bastasse isso, no bufê do almoço elas param e ficam olhando tudo, fazendo cálculos mentais. O resultado é sempre várias folhas de alface, alguns tomates e pepinos, um bife e nadica de nada de arroz ou macarrão. E assim você descobre o que é fonte de carboidrato e que isso não é desejável nesse período obscuro, embora tenha sido largamente consumido por todas suas conhecidas nos meses anteriores.

Nada de chocolate, nada de guloseimas, nada de carboidratos e... exercícios? Aquela colega de trabalho usa o almoço para malhar? E volta com dores pelo corpo??? O que diabos justifica isso???
Ah, queridos, isso é uma questão delicada. Nós fazemos isso porque temos noção. Quer dizer, eu gosto de fingir que tenho. Quem me viu usar um biquíni no verão passado viu que a minha noção é vaga e não passa por uma boa olhada no espelho de corpo inteiro.

Mas assim: barriga e celulite são brigas eternas. E contra elas vale tudo, tudo, tudo, tudo. Até passar pelo mais maravilhoso e igualmente cruel efeito colateral: a calça jeans folgada.
Nenhum homem jamais vai saber a alegria que é colocar uma calça jeans e conseguir tirá-la sem abrir o botã0. E nenhum homem jamais vai saber a tristeza que é passar dois meses com ela folgada por saber que isso não dura para sempre e que no inverno seguinte ela vai caber direitinho.

Tudo por um belo biquíni...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mulheres e carros

Cinco fatos que se um homem - ou um vendedor bem preparado - não disser para uma mulher ela descobrirá da pior maneira:

1 - Mexer o volante para tirar o carro de um areial ajuda muito a atolar;
2 - Dar a ré não vai desatolar o carro, muito menos acelerar mais;
3 - Se o carro for um Crossfox e a mulher tiver a mania de dar "beijinhos" no pára-choque do carro que está atrás na hora de estacionar, até o pára-choque do cross chegar no do carro o estepe já fez um lindo desenho no capô do coitado;
4 - As rodas da frente não se mexem quando o carro tem direção hidráulica e está desligado;
5 - O freio também não funciona se o carro ainda estiver desligado.

Com muita sorte ela não descobre tudo isso no mesmo dia.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Tab Rosa

O BlueBus deu a nota a partir de notícia do El Mundo e eu replico aqui: energético róóóóóóóóóósa da Coca-Cola para as mulheres. As espanholas vão beber primeiro.

O comercial é... bem... fabuloso:



Não sei o gosto, mas espero que eles se dêem conta que não será bebido com whisky.

domingo, 7 de setembro de 2008

Dia dos Ruivos

Saiu no G1 - e eu dou link aqui, devidamente modificado como ensinou a barriga do TDUD. E quem diria que meus semelhantes somam apenas 2% da população mundial?

Blip yourself

Tudo o que você realmente precisa saber sobre o Blip o Alexandre já deu na semana passada. Sobre a novidade, sigo a opinião do Dauro: viciante. É legal ser DJ. É legal ouvir o que seus amigos ouvem. E é mais legal ainda descobrir sons maneiros.

Ok, sei lá porque diabos meu Firefox não toca. Talvez porque ainda seja o 2.0, vai saber. Mas o IE7 e o Chrome suprem essa carência. Sim, eu sou louca e fico com três navegadores abertos...

Outra coisa chata é que a conexão via rádio sofre interferência do vento. Sim, eu moro no Sul da Ilha. Sim, isso é um saco. Sim, já estou acostumada. Certo, isso não chega a ser um problemão.

Ah, e dá para você colocar seus blips no blog. Eu testei, mas não consegui mudar o lay-out. A fonte das mensagens eram tão enormes que ficou simplesmente horroroso na minha barra lateral. Por enquanto vou deixar em stand-by.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Questão de perspectiva

Pense no seguinte diálogo imaginário:

- Mãe, tô namorando um cara de Floripa.
- Ah é, quantos anos?
- Faz 32 semana que vem.
- Que bom, alguém da sua idade. E o que ele faz?
- Cursinho no Energia.
- Cursinho? Como assim cursinho?
- É, ele vai prestar vestibular no final do ano.
- Tá, mas ele trabalha, né?
- Não, nas horas vagas ele pega onda...
- Vai dizer que é daqueles que moram na praia?
- Também não, na real ele mora com a mãe...

Os resultados podem ser bem distintos. Ou a mãe pode ter um treco, ou pode ficar muito feliz.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Modernidade ou decadência?

As crianças resolveram do nada que eu devia arrumar um namorado. Não satisfeitas, resolveram listar os possíveis titulares do cargo. E foram citando nomes. Refutei um a um com argumentos mais sólidos do que o sincero "não dá liga": ou era casado, ou era gay.

Pra dizer bem a verdade, na maioria das vezes, o candidato era os dois.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Finalmente uma notícia boa

Os Trapalhões ganham uma coleção com 39 filmes.

Incrível como a marca está diretamente vinculada ao Didi, não? Tanto que Atrapalhando a Swat, em que ele não atua, não está na lista.

Da lista, os que me marcaram mais foram As Minas do Rei Salomão, O Mágico de Oróz, Os Trapalhões na Serra Pelada (aliás, as imagens do ouro e do trabalho enlameado da Serra Pelada fazem parte da minha infância), O Cangaceiro Trapalhão e Ali Babá e os Quarenta Ladrões. E o meu top 1 é Os Saltimbancos Trapalhões, forever.

Muitos dos filmes que eu gosto foram feitos quando eu era bem pequena mesmo, até mesmo antes de eu nascer. Agradeço à Sessão de Férias que dedicava as quartas-feiras aos filmes da trupe.

E sim, eu chorei tanto quando o Zacarias morreu quanto quando foi a vez do Mussum.

domingo, 10 de agosto de 2008

Um agradecimento e um conselho

Quero registrar um "muito obrigada" ao meu vizinho que logo cedo colocou Fábio Jr. cantando Pai a todo o volume. Assim sendo, não esqueci - de novo - de ligar para o meu velho no Dia dos Pais.

Ele fica o dia inteiro rondando o telefone. Só sai de perto quando todos os filhos ausentes ligam. Uma vez eu esqueci de ligar. Quando minha mãe telefonou à noite para falar que ele tinha ido para cama mais cedo, todo tristonho, meu coração sumiu. A verdade é que ele ficou muito mais sentimental depois do derrame e eu ainda não acostumei. Coisas para as quais ele dava valor zero antigamente, como uma ligação no dia dos pais, agora têm todo o valor do mundo. Certo ele, esses pequenos gestos aquecem a alma.

Quanto ao conselho, é voltado ao mesmo vizinho. Não custava ter baixado o volume, ou mesmo desligado o aparelho, quando a música acabou, né?

sábado, 9 de agosto de 2008

A Pequena Loja dos Horrores, de 1960

Fiz uma descoberta bem feliz esses dias. Eu odeio promoções de locadora de DVD, sempre que eu chego nunca tem mais nada de interessante. Mas alguém teve a feliz idéia de comprar filmes bacanas lá e deixar em sebos. Assim sendo, abocanhei, entre outra coisas, um Pequena Loja dos Hororres, versão de 1960, por dez pilinhas. Fiquei tão emocionada de encontrar essa versão que nem me toquei de ver se era wide screen. Não era. Grunf!

O que eu acho mais bacana em filmes antigos são as capinhas. Às vezes elas são originais, casos de faroestes. Outras vezes elas colocam o famoso do filme em primeiro plano. E quem é o famoso aqui? Jack Nicholson!!! Embora ele apareça no melhor estilo Jack Torrance olhando para você, ele faz uma ponta mínima, digna de ser o penúltimo nome a aparecer nos créditos. O que ele faz? Um louco, claro. Um inesquecível louco, como a outra ponta que fez em 1969, bem mais célebre, em Easy Rider. Ficou curioso? Veja a participação de Nicholson em A Pequena Loja dos Horrores:



Enfim, o "astro" da película dirigida por Roger Corman e escrita Charles Griffith é Jonathan Haze. Ele é um atrapalhado funcionário de uma floricultura pertecente a um árabe, apaixonada pela doce Audrey, que também trabalha lá, e filho de uma hipocondríaca. Ele começa a cultivar uma estranha planta, a quem batiza de Audrey Junior. Ele tenta ao mesmo tempo manter o emprego, conquistar Audrey, cuidar de sua mãe e agradar sua estranha criatura. O objetivo é ser gentil e cordial com todo mundo. Um homem simples, sem vícios, com amor no coração e muitas idéias de jerico, que faria qualquer coisa pelos outros, até mesmo [música de suspens] matar.

O filme é uma pérola em se tratando de humor negro, desde a senhora que adentra a floricultura todos os dias com um novo funeral para remeter flores até o comissário de polícia falando acidentes acontecem ao se referir à morte de um de seus filhos. Também tem um grande tom teatral - pudera, as gravações duraram dois dias! E, na minha humilde opinião, todo consultório dentário deveria ter a cena de Haze e Nicholson em looping eterno. Assim, só para quebrar o gelo.

Ao que tudo indica, essa versão virou cult. Tanto que em 1986 ela foi refilmada por Frank Oz, em musical. Essa segunda versão teve a participação de vários grandes nomes da comédia americana: Steve Martin, James Belushi, John Candy e Bill Murray. O papel principal fica para Rick Moranis, de Querida, Encolhi as Crianças.

Voltando à versão original, como o filme inteiro, o final é nonsense, com cenas absurdas. Mas, e daí? É só diversão mesmo...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A dentadura quebrada que ajudou no orçamento doméstico

Naquele ano, não sei dizer se 67 ou 68, ela ainda guardava luto pelo pai. Ele havia morrido três meses antes de seu casamento e a única vez em que ela não usou preto durante um ano foi no dia de entrar de branco na igreja. Mas talvez eu esteja me antecipando às informações. O fato é que, naquele dia, a dentadura quebrou. Quando o marido chegou em casa, ela não estava chorando - não chorou nem no enterro do pai e por muito tempo carregou a fama de coração-de-pedra - mas estava desconsolada. Eles não tinham dinheiro. Mesmo.

- Olha, eu passo por tudo nessa vida, mas ficar sem dente eu não fico.

É estranho uma pessoa que usa dentadura aos 22 anos falar isso, mas a culpa não era dela. Um dentista picareta que tinha passado por Gaspar justo quando tinha dado uma dor de dente fez o estrago. Adeus aos quatro dentes da frente da arcada superior, bom-dia vergonha que duraria até os 63 anos, quando finalmente botou implante.

Pediu, pela segunda vez na vida com firmeza, que ele fosse pedir informações no banco. Era contínuo, mas devia ter um sindicato. Vai saber?

E não é que tinha? Marcou para o dia seguinte. Acordaram cedo, tomaram café, ele colocou ela na garupa da bicicleta e andou do Itaum até a rua 9 de Março. Lá explicou onde era o sindicato, na rua Itajaí. Depois ela iria a pé para casa. Não conhece Joinville? Azar, eu sou péssima para distâncias, mas sei que é muito longe para se andar e mais longe ainda para se carregar alguém na garupa.

Dentadura colada, voltou pela rua São Paulo. Quando passou pela Matric viu uma fila enorme de mulheres e uma placa de Precisa-se de Costureira. Não sabia costurar, seguiu andando.

Andou e lembrou do salário do marido. Lembrou das galinhas que criava para poder ter ovos. Lembrou da vez que o primo do marido falou que era uma vergonha um quintal sem nenhuma flor, só tomate, pepino, couve, milho e até aipim. Lembrou da casa de madeira com a "casinha" lá nos fundos. Lembrou do mesmo primo falando ao marido que ele não devia nunca deixar ela trabalhar, que esse povo da roça não sabe nem falar direito. Lembrou que uma vez por mês podia fazer um pedido no nome da cunhada na firma em que ela trabalhava e pagar com desconto - e uma vez por mês ter toicinho no feijão.

Chegou em casa pingando - era aqui que deveria entrar o preto do luto - fez o almoço. O marido chegou, comeu e voltou para o trabalho. Não era um homem carinhoso, bem longe disso, mas sempre foi um homem honesto e trabalhador. Tinha construído a casa ele mesmo, aos finais de semana, com a ajuda braçal dos parentes. Ela realmente queria ajudar mais.

Depois que ele saiu para trabalhar, agarrou a rua e voltou na empresa. A pé. De preto.

Com 170 centímetros de altura, 45 quilos, olhos grandes e verdes e um cabelo louro que tinha sido platinado pelo sol da roça, chamou a atenção. As outras mulheres da fila não ficaram muito contentes quando o gerente chamou ela. Furar fila não é direito, mas fazer o quê quando é o patrão que força?

Na entrevista, mentiu. Disse que já tinha costurado em uma empresa de Blumenau. Sem nunca ter visto uma máquina de faca na frente, fez o teste e passou. Contratada, mentiu de novo. Disse que estava em Joinville há apenas dois meses e que tinha perdido a carteira de trabalho na mudança.

O marido foi chamado - e com ele o pânico da desaprovação. Descobriram que a carteira só poderia ser tirada em Itajaí.

No lugar da desaprovação, uma das tantas e tão disfarçadas provas do amor incondicional dele por ela: pediu licença no dia seguinte e foram de ônibus até Itajaí fazer a carteira. Para comer o dia inteiro, apenas um único chineque para os dois. E foi-se o dinheirinho que tinha guardado.

No dia seguinte ela tomava posse da máquina de costurar na malharia.

Foi assim que minha mãe conseguiu o único emprego com carteira assinada na vida dela. Ficou nele por apenas dois anos, mas isso eu conto depois.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Gmail assustador

Dias desses recebi no gmail a confirmação de matrícula em uma disciplina em Portugal. Não faço intercâmbio. Sequer faço faculdade. Vírus?

Observando melhor, vi que o e-mail era destinado a anacrisoliveira. Meu e-mail é anacris.oliveira. E, vamos combinar, Ana Cristina de Oliveira é o que não falta nesse mundo, tente uma busca rápida no orkut.

Achei que a secretaria tinha errado e fiz a delicadeza de encaminhar o e-mail para a Ana Oliveira certa. Para onde foi o e-mail? Para minha caixa de entrada!!!

Dúvidas: o gmail não diferencia pontos? Alguém mais já passou por isso? Se eu recebo mensagens da anacris sem ponto será que alguma anacris sem ponto recebe a minha? Pânico!!!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Estatística lastimável

Desde que comecei a postar aqui eu resenhei dois livros. D-O-I-S.

Em primeiro lugar, esse número pífio é resultado de uma convicção pessoal: só resenhar livros dos quais eu tenha gostado - ou odiado tanto que valha a pena gastar digitais no teclado. Mas isso é uma meia-verdade. Pelo que eu me lembre, aí entram mais dois.

Pífia também é a atitude de começar e não terminar. Mas aí volto a falar de outros dois.

Junte a tudo isso os dois exemplares que comprei num sebo semana passada e agora ornam meu criado-mudo e, tcharam, toquei em oito obras desde que iniciei aqui.

Vergonhoso!!!

Nota pseudo-adolescente: mas agora eu tenho mobilidade total e acesso a internet da minha cama quentinha. Não leio mais livros mas leio muito na web. Por exemplo, ontem eu passei pelo menos uma hora lendo tudo sobre os atores de Harry Potter. E não é que a guria é mesmo CDF, o ruivo é mesmo tanso e o protagonista é mesmo metido a indie?

terça-feira, 22 de julho de 2008

Isso é um assalto!

Sempre imaginei como seria minha reação num momento assim. Faísca atrasada que sou, a reação provavelmente seria zero. Ou ainda tomaria um pipoco por não entender do que se tratava.

Pois bem, há exatamente uma semana eu passei por isso. Não assim. Ninguém falou nada. Simplesmente passou no meio de uma calçada lotada no Brás, em Sampa, navalhou minha bolsa e tirou somente minha carteira de dentro. Uma balconista de uma loja que avisou: moça, cuidado que sua bolsa está rasgada. Mas aí já era.

Com a carteira foi muita coisa. Muita coisa mesmo. Cartão de banco, talão de cheques (sim, eu ainda uso), grana, carteira de motorista, documento das crianças... Mas foi algo ainda mais importante: meu orgulho. Até agora eu acho que estava escrito OTÁRIA em garrafais vermelhas na minha testa. Sim, ninguém leva documento para o Centrão e imediações. Sim, ninguém leva cheques. Sim, ninguém leva sequer carteira. E se tiver dinheiro, que seja espalhado pelo corpo, sabe-se lá como. Exceto a turistona aqui.

Já cancelei tudo e pedi segundas vias. Já gastei no Detran, no banco e no cartório. Tudo está se ajeitando e ainda guardei a bolsa como souvenir.

Mas uma coisa eu tenho que dizer: louvo o profissionalismo do meliante. Nem eu, nem minha irmã, nem minha sobrinha vimos nada. NADA! E o talho, pelamordedeus, se fosse na minha barriga dava para fazer uma histerectomia ali mesmo, na calçada.

Outra coisa: se você tiver que fazer boletim de ocorrência em São Paulo, procure a delegacia do Itaim no plantão da delegada Daniela. Quando eu vi ela achei que tivesse entrado num filme do Almodóvar. De casaco vermelho e decotado, várias jóias, bota de cano longo e salto alto, cabelos castanhos e cheios e olhos verdes bem marcados com rímel, incrível que a delegacia não estivesse cheia de homens dando parte de documento perdido. Foi tão delicada que fez o boletim inteiro sem me chamar de tansa nenhuma vez. Coisa incrível.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Um dia no campo

Editei esse vídeo quinta-feira retrasada quando cheguei em São Paulo. Problemas de conexão não deixaram em jogar no youtube naquele dia. Ontem, no lar-doce-lar, foi a primeira coisa que eu tentei fazer. Aí descobri que ele estava com 103Mb e que pelo envio normal o YT aceita até 100Mb. Descobri também que eu não sabia porque diachos ele estava tão pesado.

Quem me salvou? Quem? Serginho, o editor das multidões, que sempre dá uma ajuda quando algum perdido tenta se aventurar nesses esquemas de vídeo. Ok que ele não mexe no windows movie maker, programa xulé usado por essa que vos escreve, mas descobriu como fazer o que eu queria, e até porque diachos meu vídeo estava tão pesado, e me passou as dicas.

Sobre o vídeo: nesse aqui eu fiz três testes. Os dois primeiros na captura, com imagem em sépia - achei que tinha tudo a ver com o tema campestre - e em definição mais alta - que foi perdida no YouTube mas que na minha máquina ficou bem legal. O último na edição. Pela primeira vez fiz algo óbvio: tentar sincronizar imagem e áudio. Ficou bem legal em alguns pontos.

Sobre o dia: férias em Ibirama no sítio da tia Cecé. Tem campo, ovelha, cachorro, riacho, árvore... Aliás, me lembra um diálogo entre Cecília e Gica:
- Lá em Ibirama é assim. Eu subo morro, a vaca da minha tia sobe o morro. Eu desço o morro, a vaca da minha tia desce o morro. Onde eu vou, a vaca da minha tia vai atrás.
- Sua tia tem uma vaca, Cecília?
- Tem...
- Ah, bom.
A vaca, aliás, se chama Celeste e tem uma participação importantíssima no vídeo.

Ah, também vale dizer que foi aí, nesse dia, que o Deco aprendeu a pular corda. Coruja eu??? Nada...

É isso: enjoy it!

domingo, 13 de julho de 2008

100% de aproveitamento

Mais uma saída dirigindo em Sampa. Mais uma vez perdida, atravessando rio que não devia. Sou um gênio.