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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Jorge Amado e os partidos políticos

Trecho extraído de Navegação de Cabotagem, São Paulo, 1981 - esperança vã

"Em verdade não existem partidos políticos no Brasil com princípios e compromissos, existem frentes onde cabem todos os segmentos ideológicos, onde convivem direita e esquerda no vaivém dos interesses pessoais. Não são partidos, são siglas que se intitulam democráticas, trabalhistas, sociais-democráticas, liberais, socialistas, sem que tais denominações tenham a ver com tomada de posição, razão de luta ou de governo, uma desfaçatez. E ainda pretendem estabelecer o parlamentarismo. Parlamentarista que sou, tremo de medo. Parlamentarismo sem parditos, ah! esse parlamentarismo à brasileira vai ser uma grande bambochata."

Do Houaiss, bambochata:
substantivo feminino
1    gênero de pintura que representa festas populares e cenas rústicas ou burlescas
2    (1871)Derivação: por extensão de sentido.
     festa marcada por excessos; orgia, pândega, patuscada
3    Derivação: por extensão de sentido.
     aquilo que ultrapassa os limites do bom senso; extravagância, estroinice

sábado, 24 de maio de 2008

Asfalto Selvagem - Engraçadinha Seus Amores e Seus Pecados

Li essa edição, que reúne as duas obras que formam Asfalto Selvagem. Engraçadinha: dos 12 aos 18 e Engraçadinha: depois dos 30. Sim, eu li. Não vi nem o filme, nem a série. Nem Lucélia Santos, nem Alessandra Negrini. Nem chanchada, nem glamurização. Só a doença crua do Nelson Rodrigues.

O livro, claro, é eletrizante. Um gancho melhor que o outro, impossível acabar um capítulo e ir dormir, como se nada tivesse acontecido, como se não se estivesse morrendo de vontade de saber o que vem depois. Aliás, esse é o grande lance: ele conta a história como se estivesse contando uma fofoca. Então é claro que a mulherada ficava alucinada nos anos de 59 e 60, consumindo o folhetim, mesmo numa história cheia de sexo e tragédia - mesmo que fosse uma época bem menos pudica que atualmente.

O único problema é que o livro não acaba. Um amigo jura que ele ia escrever outra parte, com Engraçadinha madura. Madura? Mais madura??? Pelas minhas contas ela estava com 37 anos. Mais madura que isso só a menopausa, o fim do sexo. E eu lá ia querer ler sobre os calores de Engraçadinha???Aliás, o livro termina como várias frases da obra, sem um fim lógico, como se o ponto final tivesse caído ali. E isso me lembra uma história que alguém contou - acho que foi o Zé Dassilva, se não foi, o contador que se apresente - de como os companheiros de redação sacaneavam o Nelson Rodrigues: quando ele levantava da máquina de escrever, iam lá e botavam mais algumas frases. Diz que ele era tão cego que não percebia. Será então que...

Bem, o final do livro pra mim ficou algo como:
Quando Engraçadinha se deu conta que seu filho a amava ela.
Silvio empunhou a navalha e.
Letícia descia a calcinha da prima quando.

Enfim, você quer ler mais. E.




Agora, tem um ponto que não sai da minha cabeça: o manequim da Silene, filha da Engraçadinha. A protagonista já se amava quando adolescente, com suas coxas grossas e gostosas. E sua filha era uma cópia dela. E o livro todo só se fala da beleza, formosura e sensualidade de ambas. E tem uma hora que a prima pergunta o manequim, para dar uma calcinha de presente. 44. Sim, a gostosinha de 14 anos usava 44. 14 anos. 44. Me respondam: como se chama uma mulher que usa 44 atualmente?

A noção de corpo belo mudou muito em 50 anos - e só por isso minhas pernocas fininhas não são as coisas mais ridículas do mundo. Vejam as misses aí acima. Você vai dizer que nem tanta diferença entre a Miss Brasil 1959 Vera Ribeiro e a 2008 Natália Anderle, certo? Claro, o peso deve ser o mesmo, entre 50 e 55kg. Só que enquanto a Vera devia ter menos de 1,60 a Natália tem 1,75.

Será que precisava ter mudado tanto assim?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A Menina que Roubava Livros


Certos livros não deveriam trazer a foto do autor. Um deles é "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca, 500pgs, R$ 21,20), em que Markus Zusak faz uma narração do ponto de vista da Morte. Não é possível conceber aquele cara novinho (assim, da minha idade), de queixo quadrado e cabelo jogado, sorrindo (vejam vocês, ele sorri!) escrevendo coisas como fez uma pausa silenciosa de doze frases ou pra mim, o céu era da cor dos judeus.

Esse é mais um livro da série "peguei na biblioteca porque estava na seção de indicados". Volta e meia eu chego nessa prateleira para me obrigar a conhecer autores diferentes. Essa obra me chamou a atenção. Primeiro de longe, pela belísima capa. Depois pelo título: eu já fui uma menina que roubou livro e consigo lembrar da primeira vez que eu entrei numa biblioteca, da primeira vez que entrei numa livraria, do primeiro livro que eu tive e da sensação que esses três momentos causaram na minha vida.

Só em casa fui descobrir que a narradora era a Morte. E, putz, ela não era bem como eu imaginava. Não no início. Muito leve, muito lírica, muito meiga. Depois me acostumei com toda sua poesia.

Minha segunda descoberta foi uma história de uma menina alemã, pobre, na II Guerra. Mas o que ainda há para ser dito sobre a II Guerra? Ainda mais por garotinhas leitoras? Já não houve uma judia famosa? Bem, essa é alemã. Mas gosta de judeus. Para mim, que não li Anne Frank, a maneira do tempo passar foi fabulosa, ver que aquela informação da aula de história de que a guerra durou só seis anos deixa de ser relevante quando você está no meio da disputa e não sabe exatamente quanto ela vai durar.

No final, o livro deixa passar uma nesga de 'inspirado em fatos reais', já que termina na Austrália, onde o autor nasceu, filho de pais que cresceram na Alemanha nazista e na Áustria.

Ok, acompanhei Liesel Meminger, seus amigos, seus dramas. Odiei nazistas, amei judeus. Não seria fabuloso se tudo terminasse em 1945? Agora, depois de ler outras histórias, tudo parece meio repetitivo.

Mais informações sobre Markus Zusak e A Menina que Roubava Livros? Tem o site oficial (com a foto) e uma entrevista no ReadingGroupGuides.com

Anotação Mental da Suzanne - sempre que ouço, leio, vejo outra história sobre a II Guerra me pergunto: e aí, já não está na hora de se falar de Israel e Palestina?